domingo, 15 de janeiro de 2017

O dia em que assisti ao "Esquenta"

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Como todos sabem, esse ornitorrinco televisivo foi apresentado por Regina Casé, e unia a nata da nossa cultura, como Arlindo Cruz, Preta Gil, um outro pagodeiro que ri medonhamente e cujo nome ou apelido não me lembro, DJ Marlboro e outros gênios. Entre as inúmeras atrações do programa estavam danças, músicas e, quando Casé deixava os convidados falar, micro-entrevistas. A proposta do Esquenta era, visivelmente, passar a visão torta e perversa de que o povo consome o que está no esgoto da cultura, e por isso deve se contentar porque é assim que deve ser. Em suma, que o telespectador não deve ter vergonha do lixo produzido por nossos artistas; ao contrário, deve apreciá-lo, pois é o máximo que conseguem.

Sendo assim, os estilos musicais apresentados são previsíveis: samba, rap, pagode, funk; tudo o que gente como Regina Casé insiste dizer que é a cara do Brasil. Esses 4 cavaleiros do apocalipse sonoro ditam a trilha de toda a atração. A apresentadora, com vestimentas que a deixavam com a aparência de um grande repolho mutante, dá o chute inicial no programa chamando a funkeira Anitta, que canta uma música sobre como seduz os homens. Durante a performance, Casé permanece ao lado da cantora, realizando poses e mimicas, talvez tentando ser engraçada, não entendi bem. Em seguida a apresentadora introduz o convidado internacional Afrika Bambaataa, um DJ considerado um dos "padrinhos" do hip hop. Não tenho certeza se isso é bom. 

A anfitriã tece muitos elogios ao gringo, mas, antes que o músico esboçasse alguma reação, Casé grita "VEM COM TUDO!!!", e, subitamente, entram uns jovens "dançando", num passo bizarro que os assemelhava a siris lutando karatê, dando pulinhos para a frente, em duas fileiras, a da frente com garotos mais velhos, seguida por uma versão mirim logo atrás, ao som de um funk que repetia hipnoticamente "vemque vemque vem com tudo". As roupas dos dançarinos eram bizarramente estranhas (até para funkeiros), numa escrachada mistura de mestre-sala de escola de samba com alienígenas dos filmes de Ed Wood. 

Depois da dança crustácea, a apresentadora criticou o mau-humor de uma jovem integrante do programa, e então se voltou ao convidado internacional e perguntou: "how can you say 'marra' in english?". Num rápido movimento, Carlinhos Brown pula no meio da tela e passa a girar agachado e a cumprimentar o auditório. Vestido de sua singular touca, que, ou esconde dreads, ou uma cabeça grandona, não sei, começa a fazer seus típicos barulhos vocais incompreensíveis. Em seguida canta uma música sobre o Bambaataa. Noto que fazia 20 minutos que falavam sobre o DJ, mas ainda não o deixaram falar. Se o "Esquenta" era a tentativa de transparecer nossos modos, pelo menos nisso acertavam. 

(Comecei a estranhar Carlinhos Brown, pois já havia passado alguns minutos da sua música e ele ainda não tinha feito barulho de percussão com a boca. Mas no fim ele não me decepcionou. Bá, tum, tum, pá, pá!).

Chamaram uma amiga da Anitta ao palco. Da ultima vez que vi isso, no Faustão, a colega contara que a funkeira tem o costume de soltar peidos na van e fechar as janelas para torturar as amigas (se duvida busca no Youtube). Mas dessa vez não houve segredos íntimos. Anitta celebrou sua amizade cantando uma música sobre como ela tem facilidade em seduzir homens. A grande vantagem do programa é que tudo é rápido, e os cantores só cantam até o refrão.


Fui ao banheiro pois passava serviço de utilidade pública sobre ecologia. Ao voltar, vi Arlindo Cruz terminando sua apresentação. Não fiquei triste, pois como ele está em todos os programas da Globo, é só esperar o Faustão. Merchandising de chinela com um mini concurso que não compreendi as regras. Não faz mal, a propaganda foi feita. Anitta come ao vivo e diz: "eu amo coxinha de galinha". "Nós também", diz maliciosamente o pagodeiro ao seu lado, olhando para seu amigo. Tudo no amistoso clima de bar fuleiro.

Descobri que o programa era um bom lugar para trabalhar. Eu queria. Havia convidados fixos que nem falavam. Eu poderia ter lançado um disco de algum estilo de música aclamado pelo público do Esquenta. O pré-requisito para isso eu tenho, que é a falta de talento. 

Apesar de todo ridículo, aprecio a cultura trash. É pra rir mesmo. E não havia dúvidas de que, diante do programa, essas obras kitsch da arte moderna chegam a parecer um Rembrandt. A atração é de fazer inveja a qualquer filme comprado pelo Silvio Santos. Para levá-la a sério, só sendo desmiolado ou dessa gente festiva das esquerdas que afirma toda cultura como "boa", "bonita" e "válida", mesmo as mais perversas, horríveis e desprezíveis. Ou as duas coisas.

Acabei pegando no sono sem poder ver o final do programa. Não fez mal. Todo domingo era a mesma coisa.

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